Quinta-feira, Maio 08, 2008

ÍNTEGRA DA ENTREVISTA AO 'JORNAL DA UNIVERSIDADE' SOBRE O 'PORTO ALEGRE DÁ POESIA'


Como um dos responsáveis pela organização do PortoPoesia (anual) e do Porto Alegre Dá Poesia (evento de seis dias em comemoração à semana de Porto Alegre, no final de março), dei a entrevista a seguir para o jornalista Marcelo Spalding, do Jornal da Universidade (UFRGS). Publicados alguns trechos, como é o usual, na edição de Abril/2008, deixo-a registrada aqui na íntegra, para dirimir eventuais dúvidas ou mal entendidos.

Sidnei Schneider


Jornal da UFRGS: Por que temos nessa época do ano uma proliferação de eventos literários (FESTIPOA, Porto Alegre Dá Poesia, Semana da Poesia de Cachoeirinha)?

Sidnei: A cidade está cheia de eventos, grupos, oficinas e saraus de poesia, o que é muito bom para todos. E é ótimo que isso se estenda para as cidades vizinhas. De uns anos para cá a movimentação cresceu. Baseados nisso realizamos o PortoPoesia em 2007, buscando reunir num só encontro todas as tribos e poetas e dar visibililidade à poesia aqui produzida. Em preparação ao 2º PortoPoesia, o grande evento anual de 22 a 28 de setembro de 2008, realizaremos uma série de outros, sendo o Porto Alegre Dá Poesia, comemorativo à Semana de Porto Alegre, tão somente o primeiro. É um projeto permanente de discussão e divulgação da poesia, e a cada atividade novos poetas são incorporados.

Jornal da UFRGS: Como surgiu a idéia de realizar o Porto Alegre Dá Poesia? Vocês tinham conhecimento do FESTIPOA?

Sidnei: A idéia do Porto Alegre Dá Poesia surgiu no final do ano passado. Faríamos leituras de poemas no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, mas como estávamos realizando reuniões regulares para a edição de um jornal de literatura e arte, também chamado PortoPoesia (aguardem!), com um amplo Conselho Editorial, a idéia cresceu até a proposta atual, com painéis, debates, leituras e apresentações durante a semana inteira, e o patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura.

Em Porto Alegre temos vários teatros, galerias de arte, cinemas, tudo funcionando concomitantemente, mas se ocorrem dois eventos literários durante uma semana isso causa espanto. É preciso perguntar por quê. Eu, que faço parte da organização de um e fui convidado para participar do outro, posso falar: não passou pela cabeça de ninguém alterar as datas, por acaso coincidentes em alguns dias. No 1º PortoPoesia programamos até três atividades simultâneas, porque o público tem interesses distintos e sabemos disso. Nosso empenho se orienta para dar vasão a esse gênero tão pouco valorizado pelos meios de comunicação e pelo poder público que é a poesia, inversamente proporcional ao seu prestígio. É um serviço de utilidade pública, desacostumar da inércia os que achavam que Porto Alegre não comportava esse tipo de coisa, e mostrar que a poesia tem o seu espaço e amplia sua função social quando bem atendida e veiculada. Se depender de nós, a cidade não será mais a mesma.

Jornal da UFRGS: Na opinião de vocês, esse tipo de evento consegue formar leitores e alavancar a carreira de escritores locais?

Sidnei: O PortoPoesia atrai um público interessado e pouco assistido em termos de eventos de poesia. Forma um leitor que não é um leitor qualquer, mas com visão crítica da realidade e da literatura, e com uma perspectiva humanizada. Quanto aos autores, poeta não tem alavanca nem carreira, tem é obra. Se ela se sustenta ou não, isso dependerá de muitos fatores, entre os quais trabalho e sensibilidade. Não há evento ou mídia que façam um poeta, ainda que alguém possa acreditar nisso, do mesmo modo que uma mentira repetida mil vezes cedo ou tarde se esgarça. O que esse tipo de evento se propõe é esmiuçar, trazer para perto e divulgar a obra de autores vivos ou mortos, valorizando os bons poetas daqui.


Para ler a reportagem: Jornal da Universidade

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Sexta-feira, Abril 25, 2008

QUICHILIGANGUES

Quichiligangues vem aí, aguardem!!!

Quarta-feira, Abril 23, 2008

NICOLÁS GUILLÉN - DE QUE COR?

O poeta cubano Nicolás Guillén


DE QUE COR?

“Sua pele era negra,
mas tinha a alma
puríssima
como a neve branca”


Eugênio Evtuchenko (segundo o noticiário
sobre o assassinato de Martin Luther King)


Que alma tão branca, dizem,
a daquele nobre pastor.
Sua pele negra, dizem,
pele tão negra de cor,
era por dentro neve,
açucena,
leite fresco,
algodão.
Que candura.
Não havia qualquer mancha,
no seu alvíssimo interior.


(Enfim, valente achado:
“O negro que tinha alma branca”,
a velha novela.)


Bem que se podia dizer de outra maneira:
Que alma tão poderosa negra
a do suavíssimo pastor.
Que alta paixão negra
ardia no seu vasto coração.
Que pensamentos puros negros
seu grávido cérebro alimentou.
Que negro amor,
tão repartido
sem cor.


Por que não?
por que não podia ter a alma negra
aquele heróico pastor?


Negra como o carvão.


Nicolás Guillén(1902-1989)

De "La rueda dentada" - 1972
Tradução de Thiago de Mello

Quarta-feira, Abril 09, 2008

HECKER POETA, UMA BREVE COMPILAÇÃO

Paulo Hecker Filho

SIDNEI SCHNEIDER, Jornal VAIA, Porto Alegre, mar. 2008, p. 3.

O sentimento que tenho em relação ao Paulo Hecker é o mesmo que bateu forte quando saí do filme Vinicius, o belo documentário de Miguel Faria Júnior: meu irmão! Não importam idades, idiossincrasias poéticas, gostos pessoais, nada. E não é uma questão de se comparar a qualquer um deles, a coisa é mais simples. E bem mais profunda. Trata-se de um estado permanente de busca da poesia, de superação de si mesmo, de olhar para e pensar o mundo, de se colocar nele, de enfrentar a morte e a vida, de alcançar os outros. Nisso me banho como num oceano, e convido o leitor a também fazê-lo, não com um artigo, mas com uma visita a alguns poemas essenciais:

PARTILHA

O mundo é belo demais para um só homem.
Olhem comigo o dia que nos coube, tomem,
me deixem repartir tanta luz derramada,
que se eu ficar sozinho, eu vou ficar sem nada.

(Perder a vida, 1985)

Quando do falecimento do autor escrevi um depoimento para o Vaia, por isso não pretendo repetir dados nem os poemas daquela edição, muitos de Perder a Vida, o livro mais comentado, ficando assim escusada alguma ausência. Hecker, além de crítico e tradutor, trabalhou com vários gêneros literários, por razões de foco e predileção me restrinjo à poesia, o gênero ao qual mais se dedicou nas últimas duas décadas de sua vida. Integrante do Grupo Quixote, que agitou o estado a partir de 1947 com o lema “vamos fazer uma barbaridade”, publicou seu primeiro livro de poemas em 1950, no qual se pode verificar o que tinha a acrescentar ao cenário poético da época, bem como as linhas gerais de toda sua poesia:

Ah o homem morrendo de frio na porta
do baile em que eu disse a uma imbecil que a amava.

(Ah! Terra, 1950)

Repare-se, mais adiante, em Na Porta, o mesmo tema visto de outro ângulo, mas com o mesmo sentimento. Ser poeta e fazer poesias é, antes de mais nada, exercitar um jeito de sentir, um modo particular e pertinente de captar e disseminar o essencial do que ocorre numa época, nas relações humanas ou fora delas, ultrapassando a barreira do tempo. Em suma, um modo de ver com a linguagem:

OS OUTROS

Fico vendo a dor alheia
e ver é fazê-la minha. (...)

(Não se mate, 1992)

O QUE NOS CABE

Sê firme como quem não fosse.
Sê sábio como quem não sabe.
A vida não é dura nem doce.
A vida é o que nos cabe. (...)

(Perder a vida)

Já ouvi que o Paulo Hecker publicava lado a lado poemas bons e ruins. Sem que se declare nada acerca da qualidade de poemas concretos, o que propiciaria o debate, essa posição fica estendida no ar, sem sustentação. O argumento, no entanto, deprecia. É, além de tudo, equivocado na sua própria estruturação. Um poeta merece ser avaliado por aquilo que de melhor produziu. Não são só teóricos da literatura que o afirmam. Não é assim que lemos intuitivamente a obra de cada autor e mesmo um único livro dele, sempre procurando o que mais nos atinja? Mas comecemos a verificar, então, alguns poemas na sua concretude, para discutir a questão:

À INCOMPLETA

Dizem que Deus fez o mundo em sete dias.
Está ligeiro. E sete é conta de mentiroso.
Ainda mais se tratando de Deus,
tão calmo, tão discreto que até parece que não existe;
pelo menos nunca se faz notar.
Para mim, ele continua se decidindo e não adianta grito,
se faz de surdo e ainda demora mais.
Os homens bem que lhe dão uma mãozinha,
mas não podem tudo.
As melhores invenções ele deixou em meio.
Os cavalos em pedigree, os diamantes sem lapidar...
E você, complicada coisa linda, sem me amar.

(Perder a vida)

Nota-se aqui um humor diferente daquele propiciado por Mario Quintana, mais próximo do fino deboche. Hecker é agridoce, usa uma lâmina fina e delicada, enquanto sorrimos levemente, para nos cravar o punhal no peito. Em muitos dos seus poemas se percebe a ação de um intelecto que sente, mais afeito à dança dos conceitos do que à imagem ou à melodia. Quem busca num poema o que ele não tem não encontrará nada, precisa abrir sua sensibilidade. Versos assim não se consomem em metáforas, nem empilham excessivamente os sentidos de cada palavra com recursos polissêmicos, constroem-se de outro modo:

NA PORTA

Não estou com o rei da festa
nem na festa.
Estou com o que ficou na porta
sem coragem de entrar.

(Meu filho, 1992)

HUMILHAÇÃO

Nessa semana li oitocentas páginas.
Para lembrar cinco, preciso me esforçar
e, na semana que vem, nem me esforçando.

Enquanto isso, sozinho,
um operário construiu um quarto completo
na área do edifício ao lado.
Massa grossa e fina, tijolos, teto, janelas,
tudo no seu lugar. Já está pintando.

Não é uma humilhação?

(Diário de verão, 1992)

Não faltam, porém, ocasiões em que o poeta se entrega a ritmos leves e musicais, flertando inclusive com a canção:

EU TE AMAVA

Eu te amava como um louco
E por mera gentileza
(Eu não via, eu não via!)
Você até me amava um pouco.
Não havia outra beleza
Que você sorrir pra mim.
(...)
Mas você não gostava de mim,
Só gostava de me ver amá-la assim.
(...)
Hoje diz que eu tenho de voltar.
E implora, quase chora de desejo,
Mas eu vejo, mas eu vejo, mas eu vejo:
Não é pra dar o amor
Que você não tem pra dar,
Quer é aquele amor de louco
Para ser feliz um pouco. (...)

(Nem tudo é poesia, 2001)

E há vezes em que uma fala coloquial trata com muito bom-humor temas que em outras mãos poderiam redundar em pura chatice e amolação:

VEM CÁ OCEANO

Vem cá oceano,
me diz uma coisa,
pra que tanta água?
A do Índico
não tem sequer idéia
de como existe água
no Pacífico.
Já o Atlântico
bem pode saber
pelo Canal do Panamá.
Mas pra que, meu Deus,
está água toda?
Vai por mim, oceano,
vai por mim,
a dose é uma cerveja.

(Jornal Folha de Letras, 2003)

O poema a seguir já foi chamado de “uma sociologia da literatura”, provocante visão crítica do que é e não é fazer poesia, e pode ser útil para deixar mais conscientes poetas de todos os “tamanhos”:

OS POETAS MENORES

Os poetas menores vão conversar nas livrarias,
freqüentam palestras, congressos, seminários
e tardes de autógrafos pensando nas suas.
Os poetas menores participam de semanas culturais
e feiras do livro até no interior.
Só não estão em casa trabalhando. Não têm tempo.

Os poetas menores fazem visitas e são visitados.
Assistem a sessões em que conhecem a mesa e a platéia
e cumprimentam cada um.
São os primeiros a abraçar pelo prêmio ou a homenagem
e apesar disso
têm emprego, mulher, filhos,
fumam,
ou não fumam,
comem nas horas regulares
e escrevem. Não sei como.

Já os poetas andam atrás da sua poesia.
Segundo Faulkner, por ela deixariam morrer as tias.
E tias aí é eufemismo, a Bíblia diria pai e mãe.

Ninguém mais fácil de contentar do que um poeta menor.
Lembre algo que ele publicou
e logo receberá em casa suas obras completas,
sempre mais numerosas do que previa
e com dedicatórias de enrubescer seu ego,
por desproporcional que seja, como é a regra.

Folheia os livros e viu tudo,
se aproximam, não chegam, repetem, não dizem.
Mas o autor deseja opiniões precisas
e se refere a páginas que não estão
entre as vinte e duas que você leu
e não gostou.
A sorte é que supõe a favor o que é reserva
e sorri.

Para o poeta basta o que escreve,
o poema dá sentido à sua vida.
Sem o poema, restam ao poeta menor os comentários.
Não estranha que seus tímpanos dobrem de sensibilidade
ao menor sinal de interesse.

O poeta menor ri, fala macio, é prestimoso,
evita problemas na vida como na arte.
Por isso justamente é menor,
embora sofra tratando de não sofrer.
Na arena das relações e das letras,
não enfrenta os leões,
mas não acaba menos devorado,
pois há leões onde menos se espera.

Não se pode dizer que o poeta menor leve uma vida atribulada.
Busca se preservar de riscos,
o que às vezes é tão incômodo como corrê-los,
mas a falsa poesia que faz mostra que leva uma vida falsa.
Vivesse para valer, podia não ser poeta,
mas não seria um poeta menor.

O poeta menor não chora de noite como o poeta,
de noite ele dorme.
No outro dia, refeito, ocupa-se tanto
que não sobra espaço para o poema.
Já o poeta,
mesmo sem pensar no poema, o vive
e assim, quando vai ao seu encontro,
pode dar com ele.

Diante desses fatos, e outros de teor semelhante,
vê-se que os poetas não costumam ser agradáveis
e que os poetas menores são encantadores.
É ir ao poeta pelo seu poema
e folhear em pessoa o poeta menor.

(Vento, águia, coelho, 1991)

Hecker tinha afeição por certos personagens: caixas de supermercado, office-boys, garis, pedreiros, corredores de maratona, enfim, gente simples e esforçada:

NO BEM

Tem dezesseis anos, um metro e oitenta, e é lindo.
Todo mundo acha e ele concorda, rindo.
Office-boy, cruza a cidade num instante,
andar é chegar antes.
E estar de pé descansa, não vacila
nem diante da maior fila.
Vai espalhando alegria
como um dom do dia
e não importa a quem,
está no bem.

(Nem tudo é poesia)

Para terminar, dois poemas. Um parece nos dar um entendimento do que seria, afinal, a paz interior. O outro, sobre o sol, tema recorrente nas suas últimas poesias, fala de uma doação ilimitada que bem poderia ser a que nos chega através da vida e da obra desse poeta:

COM OS OUTROS

No que ando pela rua
evidente é a humanidade
e em seguida eu faço parte
e nem me procuro mais.

SOL/AR

Faz sol.
Como se não fizesse nada,
faz.

Em si como Deus.
Tanta luta e o sol
em paz.

E sem nada esperar,
tudo nos traz.

(Nem tudo é poesia)

Se o leitor desconfiou que estou instigando a ler os livros, revirar as folhas, degustar os versos de Paulo Hecker Filho, acertou em cheio. Mãos à obra!


BIBLIOGRAFIA:

FISCHER, Luís Augusto. Literatura gaúcha. Porto Alegre: Leitura XXI, 2004.

_______________. Um passado pela frente, poesia gaúcha ontem e hoje. Porto Alegre: Ed.Universidade/UFRGS, 1998.

GUTFREIND, Celso e LERINA, Roger. Querido Paulo. Zero Hora, Porto Alegre, 17 dez. 2005. Caderno Cultura, pp. 1; 4-6

HECKER FILHO, Paulo. Perder a vida. Porto Alegre: Tchê!, 1985.

_______________. Todas as mulheres, com perdão das que faltam. Porto Alegre: Tchê, 1986.

_______________. Vento, águia, coelho. Porto Alegre: SMC, 1991.

_______________. Não se mate, Diário de verão, Meu filho. Porto Alegre: Tchê/IEL, 1992.

_______________. Só poema bom (trad.). Porto Alegre: Alcance, 2000.

_______________. Nem tudo é poesia. Porto Alegre: Alcance, 2001.

_______________. Instituto Estadual do Livro. Autores Gaúchos, Porto Alegre, dez. 2000. pp.4-6

_______________. Entrevista a Gilberto Wallace, O Polêmico Paulo Hecker Filho. Folha de Letras, Porto Alegre, dez. 2000. pp.4-6

_______________. Poemas inéditos de Paulo Hecker Filho. Folha de Letras, Porto Alegre, jun. 2003. p.3

_______________. Paulo Hecker Filho. Folha de Letras, Porto Alegre, Inverno 2004. pp.32-36

INSTITUTO ESTADUAL DO LIVRO. Autores Gaúchos, Paulo Hecker Filho. Porto Alegre: IEL/Unisinos, 1998.

SCHNEIDER, Sidnei. Valeu, Paulo Hecker! Vaia, Porto Alegre, jan. 2006. pp.8-9

SCHÜLER, Donaldo. A poesia no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987.

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PORTO ALEGRE DÁ POESIA - CLIPAGEM 2

Clique nas imagens para ampliar e ler:


Zero Hora, 26.03.2008, Segundo Caderno - central - ok.


Errata à legenda: Poetas Marco Celso Viola e Sidnei Schneider
Correio do Povo, 29.03.2008, Arte & Agenda, capa.


Correio do Povo, 26.03.2008, Arte&Agenda, pág 3.


Zero Hora, 25.03.2008, Roteiro Segundo Caderno, pág 4


Zero Hora, 26.03.2008, Roteriro Segundo Caderno, pág 4.


Zero Hora, 27.03.2008, Segundo Caderno, roteiro, pág 4


Zero Hora, 28.03.2008, Segundo Caderno, roteiro, pág 5.


Zero Hora, 29.03.2008, Roteiro Segundo Caderno, pág 5.


Zero Hora, 29.03.2008, Segundo Caderno, capa.

Segunda-feira, Março 24, 2008

PORTO ALEGRE DÁ POESIA - CLIPAGEM 1

Para ampliar e ler, clique nas imagens:

Zero Hora, 24[1].03.2008, Segundo Caderno, pág 5

Jornal do Comércio, 24[1].03.2008, Caderno Panorama


Zero Hora, 24[1].03.2008, Roteiro Segundo Caderno, pág 4


Correio do Povo, 24[1].03.2008, Arte & Agenda, contracapa

Segunda-feira, Março 10, 2008

PORTO ALEGRE DÁ POESIA - PROGRAMAÇÃO

Logotipo Carolina Timm

24 a 29 de Março de 2008
Centro Cultural CEEE Erico Verissimo


24/03 - SEGUNDA

19:00 – 20:30
Porto Alegre na Poesia - Maria do Carmo Campos, com leitura de poemas por Gerusa Marques.

20:30 – 22:00
Troque um Livro de Auto-ajuda por um Livro de Poesia
Leitura da poesia de Marco Celso Viola por Mario Pirata


25/03 - TERÇA

19:00 – 20:30
Cidade do Meu Olhar - Liana Timm e Élvio Vargas

20:30 – 22:00
Leitura de poemas de Maria Dinorah, e Retrato do Poeta, poemas de Mario Quintana com o Grupo Cero.


26/03 - QUARTA

19:00 – 20:30
Gritos e Sussurros no muro da Mauá -Telma Scherer, Lorenzo Ribas, Diego Petrarca (Teia)

20:30 – 22:00
Poesia não é pra qualquer um
Leitura da poesia de Isaac Starosta por Mario Pirata


27/03 - QUINTA

19:00 – 20:30
A Poesia dos Anos 70 - Eduardo Degrazia e Dilan Camargo

20:30 – 22:00
Mate dois Coelhos com uma Quintanada Só
Leitura da poesia de Jaime Medeiros Jr. por Mario Pirata


28/03 - SEXTA

19:00 – 21:00
Heitor Saldanha, um Poeta Deletado - José Weis
Coleção Petit Poa-Cadê a Poesia que Estava Aqui ? - José Antônio Silva
A Poesia de Eduardo Guimaraens - Livia Petry

21:00 - 22:00
Adote um Poeta, Alimente e Dê Moradia
Leitura da poesia de Mario Pirata pelos poetas participantes


29/03 - SÁBADO À TARDE

16:00 – 17:30
Questões da Poesia Hoje - Sidnei Schneider, Marco Celso Viola e Jaime Medeiros Jr

17:30 – 19:00
Quantos poemas faz um poeta, quantos poetas fazem um poema
Leitura da poesia de Sidnei Schneider por Mario Pirata

Patrocínio:
SMC/Prefeitura de Porto Alegre

Apoio:
Centro Cultural CEEE Erico Verissimo

Produção:
PortoPoesia Produtora

Contato Produção:
Sandra Marques 9355-6579
Assessoria de Imprensa:
Sarah Goulart 9108-7624

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Domingo, Fevereiro 24, 2008

CRUZ E SOUSA: NEGRO DIAMANTE


SIDNEI SCHNEIDER, publicado em 2003

A poética do Simbolismo, ao privilegiar o contorno e não a essência das coisas, não se constituía exatamente num meio privilegiado de apreensão da realidade, mas continuava o despreocupado culto da forma que presidia a estética parnasiana, desta vez através do cultivo do símbolo, das correspondências, da musicalidade e da troca da pretensa objetividade parnasiana pela busca do inefável. Apesar disso, a realidade rompeu a crosta teórica que supostamente guiava o movimento, bastando citar como exemplo as próprias Flores do Mal do pioneiro Charles Baudelaire (1821-1867), e, em especial, os poemas da seção Quadros Parisienses – o mesmo já não se poderia dizer da poesia de Stéphane Mallarmé (1842-1898), no aprofundamento, até os estertores, daquela poética. No Brasil, o fato de ser um negro filho de escravos a maior personalidade da escola simbolista acabou por gerar uma poesia que superou tais limitações estéticas: “Mas essa mesma algema de amargura,/ Mas essa mesma Desventura extrema/ Faz com que tu’alma suplicando gema/ E rebente em estrelas de ternura” (O Assinalado - Últimos Sonetos, US).

A monótona repetição de que Cruz e Sousa (1861-1898) era o poeta da cor branca, e que tinha, no fundo, o desejo de ser branco, após o ensaio do pesquisador francês Roger Bastide, dificultou a percepção do papel que sua poesia cumpriu, não só como expressão dos sofrimentos da população negra, mas também de combate:

ESCRAVOCRATAS

Oh! trânsfugas do bem que sob o manto régio
Manhosos, agachados – bem como um crocodilo,
Viveis sensualmente à luz dum privilégio
Na pose bestial dum cágado tranqüilo.

Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas
Ardentes do olhar – formando uma vergasta
Dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
E vibro-vos à espinha – enquanto o grande basta

O basta gigantesco, imenso, extraordinário –
Da branca consciência – o rútilo sacrário
No tímpano do ouvido – audaz me não soar.

Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
Vermelho, colossal, d’estrépito, gongórico,
Castrar-vos como um touro – ouvindo-vos urrar!

(Cambiantes - O Livro Derradeiro, LD)

O poeta, nascido João da Cruz a 24 de novembro de 1861, foi adotado pelo Coronel Guilherme Xavier de Sousa e esposa, senhores dos seus pais escravos, porque não podiam ter filhos. Recebeu uma educação conforme o melhor que a cidade de Nossa Senhora do Desterro (Florianópolis) era capaz de oferecer – ou seja, aquela a que só os filhos da alta sociedade tinham direito. Nunca desdenhou, porém, o amor pelos seus pais legítimos, o pedreiro Guilherme e a cozinheira Carolina Eva da Conceição. Sua capacidade e inteligência chegaram a suscitar reflexões acerca do equívoco da ideologia que rezava pela suposta inferioridade intelectual da raça negra. Ao ser nomeado promotor de Laguna, por um presidente de província em final de mandato, entretanto, foi impedido de assumir o cargo pela elite local. Fundou os jornais Colombo, Folha Popular e O Moleque, onde combatia o regime escravocrata e os preconceitos. Viajou pelo Brasil como ponto de uma companhia teatral e, também, fazendo palestras abolicionistas, até se radicar no Rio de Janeiro, em 1890.

A tematização do negro, direta ou indiretamente, é constante em sua poesia. Muitas vezes tal se dá através da universalização do seu drama pessoal, como se pode ler no primeiro livro de poemas: “Pedem-te bis e um bis não se despreza!/ Vamos! retesa os músculos, retesa/ Nessas macabras piruetas d’aço.../ / E embora caias sobre o chão, fremente,/ Afogado em teu sangue estuoso e quente,/ Ri! Coração, tristíssimo palhaço” (Acrobata da dor - Broquéis , B). Alguns anos mais tarde, o riso conquistaria outro teor, mais combativo: “Rir! Não parece ao século presente/ Que o rir traduza, sempre uma alegria.../ Rir! Mas não rir como essa pobre gente/ Que ri sem arte e sem filosofia./.../ Rir! Mas com o rir demolidor e quente/ Duma profunda e trágica ironia”. (Rir - Outros Sonetos - LD). Não há, como se pode ver, oposição entre o que é pessoal e comum a todos: “Por toda a parte escrito em fogo eterno:/ Inferno! Inferno! Inferno! Inferno! Inferno!” (Pandemonium - Faróis, F). O espaço restrito a que são relegados os marginalizados é tematizado: “Sim! Bendita a cova estreita/ Mais larga que o mundo vão,/ Que possa conter direita/ A noite do teu caixão!” (Canção do bêbado - F). Contra as dificuldades, o poder do coletivo: “Ó pobres! O vosso bando/ É tremendo, é formidando!// Ele já marcha crescendo/ O vosso bando tremendo..." (Litania dos Pobres - F).

No poema que abre Faróis, o filho homenageado é a própria salvação para o poeta: “Meu filho, frágil e terno,/ Socorre-me do atro Inferno” (Recolta de Estrelas - F). O futuro do rebento transforma-se em angustia, porém, em outro momento do livro: “Ah! quanto sentimento! ah! quanto sentimento!/ Sob a guarda piedosa e muda das Esferas/ Dorme, calmo, embalado pela voz do vento,/ Frágil e pequenino e tenro como as heras./.../ Minh’alma se debate e vai gemendo aflita/ No fundo turbilhão de grandes ânsias mudas:/ Que esse tão pobre ser, de ternura infinita,/ Mais tarde irá tragar os venenos de Judas!" (Meu filho - F). Os dois filhos de Cruz e Sousa morreram ainda pequenos, e o que nasceu logo após a morte do poeta também veio a falecer. A esposa, Gavita, negra carioca, tomada pela loucura, muito sofreu até ser internada. Tal trajetória pessoal e familiar poderia ser resumida no verso “Sei que cruz infernal prendeu-te os braços” (Vida Obscura – Últimos Sonetos, US), onde o autor se utiliza do próprio nome como ícone da escravidão e suas conseqüências. Quando, como que por um milagre, Gavita retorna, sã e curada, o poeta não se contém de alegria: “Posso mesmo já rir de tudo, tudo/ Que me devora e me oprime./ Voltou-me o antigo sentimento mudo/ Do teu olhar que redime." (Ressurreição - F). Quanto às crianças, não apenas as suas, mas as de todos os afro-brasileiros, o autor interpela o próprio coração: “És tu que... a púrpura do amor vais estendendo/ Sobre as crianças, para protegê-las./.../ Vai, coração!...// As crianças negras, vermes da matéria,/ Colhidas do suplício à estranha rede,/ Arranca-as do presídio da miséria/ E com teu sangue mata-lhes a sede!" (Crianças Negras - Dispersas - LD). Cruz e Sousa não quer a submissão e propõe dar o troco: “Resume todos esses travos/ Que a terra fazem languescer./ Das mãos e pés arranca os cravos/ Das cruzes mil de cada ser.// A terra é mãe! – mas ébria e louca/ Tem germens bons e germens vis.../ Bendita seja a negra boca/ Que tão malditas coisas diz!” (Canção Negra - F). Para ele não existe consideração pelo que é humano se inexistir reprovação ao que corrompe e desumaniza: “Ódio são, ódio bom! sê meu escudo/ Contra os vilões do amor, que infamam tudo” (Ódio Sagrado - US).

Para o Ceará, a primeira província a abolir a escravidão, o poeta dedicou um soneto: “Da enérgica batalha estóica do Direito/ Desaba a escravatura – a lei cujos fossos/ Se ergue a consciência – e a onda em mil destroços/ Resvala e tomba e cai o branco preconceito.” (25 de Março – Outros Sonetos, LD). Em outro poema, ao afirmar que “O século é de revolta – do alto transformismo”, Cruz e Sousa propõe: “Se é força, se é preciso erguer um evangelho,/ mais reto, que instrua – estético – mais novo/ Esmaguem-se do trono os dogmas de um velho/ E lance-se outro sangue aos músculos do povo” (A revolta – Cambiantes – LD), onde as novas filosofia e estética se mesclam com a necessidade de superar o Império de Dom Pedro II.

E então? Ainda é possível se considerar este um poeta que traiu a sua cor e bajulou a sociedade escravocrata?

SIDNEI SCHNEIDER

Hora do Povo. São Paulo, 13 maio 2003. p.8

Terça-feira, Fevereiro 12, 2008

UMBIGO DO LAGO ULTRAPASSA 20.000 PÁGINAS VISITADAS

Apesar de já ter ficado até um ano sem postagens (coitado do meu antigo computador!), o blogue Umbigo do Lago ultrapassou as 20 mil léguas submarinas. Obrigado aos visitantes.

O blogueiro.

Sábado, Janeiro 12, 2008

O GATO DE WILLIAM CARLOS WILLIAMS

Onda-gato: foto da poeta © Mara Faturi


POEMA

Ao trepar sobre
o tampo do
armário de conservas

o gato pôs
cuidadosamente
primeiro a pata

direita da frente
depois a de trás
dentro

do vaso
de flores
vazio

William Carlos Williams, EUA, 1883-1963.
Trad. José Paulo Paes.

Terça-feira, Janeiro 01, 2008

MÚSICA


o trem
e a sombra
do trem
ladram para
os dormentes

a sombra
mais
do que o trem
e os rebites
martelados
na construção

a sombra
é mais rápida:
sem atrito,
tremelica,
svoa.



Sidnei Schneider, 2007

Domingo, Dezembro 30, 2007

POEMA DE ANO NOVO (SEM TíTULO)

esse cisne vai para quem amou
esse corpo dançondula para quem amou
esse verso escorrega no papel para quem amou
esse ano....vai para quem amo



Sidnei Schneider, 03-01-1992

Domingo, Dezembro 16, 2007

LANÇAMENTO DO 23º JORNAL VAIA

Cobertura Marcelo Spalding, portal Artistas Gaúchos:


FestiVaia reúne músicos, atores e escritores em sarau animado

Sidnei Schneider dirigindo-se ao palco do Sarau

Vaias para o Ricardo Silvestrin pelo prêmio Açorianos de Literatura! Buuuuuuuuuuu.

Assim foi a saudação dos músicos, atores e escritores que estiveram no 3x4 nesse sábado para o FestiVaia. E não era um ato de desagravo ao poeta e músico, apenas a forma original e descontraída de saudar aqueles que ocuparam o microfone do pseudopalco.

Por lá passaram escritores como Alexandre Britto, Sidnei Schneider, Ítalo Ogliari, Mary Farias, os multis Leandro Dóro, Bier, Ricardo Silvestrin, além de músicos e atores que circulavam pelo ambiente e nos brindaram com alguma canja. Na ocasião ainda foi distribuída edição especial do jornal VAIA sobre poesia, a 23ª do periódico.

O resultado foi uma noite de muita poesia, alguma prosa, bastante bebida e alguma música. Que saraus como esse se mantenham na ainda tímida noite porto-alegrense e conquistem novos espaços que não a inevitável João Alfredo.

Clique aqui para ver fotos do evento

Fotos de Isabel Bonorino e Marcelo Spalding.

15-12-2007

Sábado, Dezembro 08, 2007

FESTIVAIA-15/DEZ/07-POESIA E MÚSICA

Estarei dizendo poemas nesse encontro, todos convidados.
Para ampliar o cartaz e ver quem mais participa,
clique sobre a imagem. Até lá!

Terça-feira, Dezembro 04, 2007

LAU SIQUEIRA - TEXTO SENTIDO

Poeta gaúcho nascido em Jaguarão, Lau Siqueira acaba de lançar Texto Sentido, seu quarto livro de poemas, em João Pessoa-PB, cidade à qual se integrou há vários anos, sendo hoje diretor da Fundação Cultural do município. Estou para receber um exemplar, mas não me contive. Matei a curiosidade via internet com o poema abaixo, e acrescentei outros dois antes publicados. Espiem só:

DEBANDADA

nada do meu amor restou
nem as águas do mar morto
nem o vinho em qualquer
porto

nada do meu amor restou
além dos cacos de espelho
e um eu que é outro


Texto Sentido, 2007


1965

rabisquei
poemas
e insultos
nos muros
quem dera

meus olhos
de menino

tão verdes
tão puros

nas mãos
fechadas

butiás maduros


BARULHO

palavra
por palavra
minha úlcera
de verbos
tece aos poucos
a membrana
do silêncio


Lau Siqueira



Novo blogue: http://www.t-e-x-t-o-s-e-n-t-i-d-o.blogspot.com
Blogue anterior:
www.lausiqueira.blogger.com.br
Blogue 2003:
www.poesiasim.blogspot.com

Sexta-feira, Novembro 23, 2007

VÍDEO PORTO POESIA

1º PortoPoesia, Festival de Poesia de Porto Alegre, RS, Brasil, nos dias 27/28/29/Set/2007. Aqui, durante o pré-lançamento em 04/Set/2007, reportagem da TVE com os poetas Mario Pirata, Sidnei Schneider, Oliveira Silveira, Celso Sant'Anna, atores Vera Lopes e Sirmar Antunes; flashes da exposição O Ar da Poesia; intervenções poéticas de Juliano Rossi, Rafael Rossa e Fernando Rossa, do grupo de teatro Os Invasores. www.portopoesia.blogspot.com