13 junho 2010

ENTREVISTA COM ANTONIO CICERO NO "VAIA"

Jornal Vaia, nº 29, Porto Alegre, abril de 2010.
Não conhecia Antonio Cicero pessoalmente até dividirmos uma mesa, na qual ele era o expositor, na 2ª Jornada SESC de Estudos da Poesia, realizada em Bento Gonçalves no ano passado. Sujeito afável e tranquilo, com uma fala pausada a indicar o prazer que obtém da discussão, filósofo que é, revelou-se um poeta amplamente inserido no debate atual. Solícito, atendeu o pedido de entrevista, para a qual concorremos depois eu e o editor Fernando Ramos, e cedeu um poema nunca publicado em livro.

Às respostas dadas e à necessária leitura ou releitura dos seus livros de poesia, Guardar (1996) e A cidade e os livros (2002), acrescento aqui o que recuperei de outras fontes, para ampliar a perspectiva. Não custa lembrar, também, que Cicero é letrista de Marina Lima, Adriana Calcanhoto, João Bosco, Phillip Glass e outros, e autor dos livros O mundo desde o fim (1995), sobre a racionalidade e a modernidade, e Finalidades sem fim (2005), sobre poesia e arte.

Autor de um discutido ensaio, A busca do novo, questão retomada também por nós, nele indagava: “Que grande poema não é simultaneamente uma obra de mestria e de invenção? (...) A própria idéia da valorização da novidade não é nova; nem é nova a rejeição a essa idéia. Na Atenas clássica, Isócrates já dizia que o importante não é fazer o mais novo, mas o melhor.” (FSP, 25.08.2007). O tema já o ocupara antes: “Uma revelação é tanto maior quanto mais nova for, quanto mais contrária for ao que é sabido. Daí o culto à novidade. Contudo, a novidade não é, de modo algum, uma propriedade estética; do contrário, um poema bom ficaria ruim à medida que passasse a sua novidade.” (Entrevista por ocasião do lançamento de A cidade e os livros, www2.uol.com.br/antoniocicero).

Para a escritora portuguesa Maria João Cantinho, Cicero definiu o que chama de O poema como obra de arte: “A poesia aspira ao nec plus ultra. O medíocre lhe é tão intolerável quanto o ruim. Horácio é quem melhor o diz: Mediocribus esse poetis non homines, non di, non concessere columnae (‘que sejam medíocres os poetas, nem os homens, nem os deuses, nem as colunas concedem’). Quem não é poeta acha fácil fazer poesia. O verdadeiro poeta é aquele para quem fazer poesia é extremamente difícil.” (Entrevista à Storm Magazine, reproduzida pela revista Agulha nº 28, Set. 2002). “Merde de Poète”, de A cidade e os livros, vai além: “Quem gosta de poesia “visceral”,/ou seja, porca, preguiçosa, lerda,/que vá ao fundo e seja literal,/pedindo ao poeta, em vez de poemas, merda.”

No final do evento do SESC, Cícero estava atrás de “um vinho digno de recordar Dionísio”, e isso soava quase como a busca permanente da poesia, objetivo de todo poeta e leitor.

Sidnei Schneider

ENTREVISTA:
S-Como se deu a tua formação enquanto poeta?

O primeiro poema de que me lembro de ter gostado muito, ainda no primário, foi “I-Juca-Pirama”, de Gonçalves Dias. Foi o casamento do ritmo com o sentido que me impressionou. Fiz o curso secundário nos Estados Unidos. Lá, aprendi a gostar da sonoridade da poesia inglesa e americana, antes de conhecer bem a brasileira. T.S. Eliot foi o primeiro poeta modernista pelo qual me apaixonei. Depois, foram os clássicos do modernismo brasileiro que me ganharam. Nesse ponto, não sou nada original. Gostava – e gosto – principalmente de Drummond, Cabral, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes. E, naturalmente, gosto de Fernando Pessoa. Depois veio todo o resto, de todas as épocas, tanto da poesia em língua portuguesa quanto em outras línguas modernas que aprendi. Finalmente, na universidade aprendi bem o latim e o grego, e devo dizer que hoje são os poetas gregos e romanos que tenho mais prazer de ler.

S-A opção pela filosofia por certo ilumina o teu posicionamento no debate estético e deve contribuir na elaboração dos poemas. Mas, em algum momento, o hábito rigoroso da linguagem conceitual pode atrapalhar o nascimento da linguagem poética?

No meu caso, sim. É diferente o modo de ser do poeta e o do filósofo. O filósofo pensa sobre o mundo; o poeta pensa o mundo. Costumo dizer que o poeta se retira, quando chega o filósofo; e que, se o filósofo está presente, o poeta nem chega.

S-No conjunto dos gêneros e das artes, qual o lugar da poesia? Para quem escrevem os poetas atualmente?

Goethe dizia que a poesia não é uma espécie de arte; as artes é que são espécies de poesia. Para mim, a poesia é a maior das artes. Ocorre que é mais fácil apreciar superficialmente, apreciar passivamente, outras artes, como a música, a pintura, a arquitetura etc., do que apreciar superficial e passivamente a poesia. Esta exige um comprometimento ativo do leitor. Não se lê um poema como se lê um artigo de jornal, um ensaio, um conto ou um romance. Para apreciar um poema, é preciso nele mergulhar com o melhor de todas as faculdades que temos: a inteligência, a sensibilidade, a sensualidade, o humor, a razão etc. Do contrário, o melhor poema do mundo se torna uma chatice. O poema exige que você troque a temporalidade utilitária da sua vida pela temporalidade estética dele. E esse esforço mesmo é a recompensa da leitura do poema. É claro que a maior parte das pessoas, na maior parte do tempo, prefere não fazer esforço nenhum. É por isso que são poucos os leitores de poesia. Os outros não sabem o que estão perdendo. O poeta escreve para si próprio e para o leitor ideal.

S-O que significa para ti a busca do novo?

Um equívoco. O novo não é buscado: ele é, como dizia Picasso, encontrado. Um bom poema é sempre novo, e permanece sempre novo; mas quando fazemos um poema, queremos que ele seja o melhor poema do mundo, não que ele seja “novo”. Que seja novo é a consequência, não a causa, de ele ser bom.

S-A melhor recepção do poema se daria através da performance, marcada pela imediaticidade, ou estaria ligada a uma lenta e silenciosa maturação do lido?

Penso que a escritura e a leitura permitem, de maneira geral, uma fruição superior. A performance é apenas um suplemento. É claro que pode haver grandes performances, e que, às vezes, é uma performance que nos revela um poema. Mas nesses casos, a poesia é um pouco como a canção, como algo que se encontra, digamos, "do lado de fora". Ora, quando leio um poema de que gosto, é como se eu mesmo o tivesse escrito; como se ele viesse do meu próprio pensamento; como se ele fosse o meu próprio pensamento; como se ele já estivesse "do lado de dentro". Por isso, não há nada, para mim, como ler um poema com minha própria voz interior, isto é, percebendo-o como o que me é mais íntimo.

S-Hoje trabalhas a poesia e a letra de música como gêneros de exigências específicas ou elas se confundem enquanto téchne?

Elas têm exigências específicas. No meu caso, como só faço letras para músicas já existentes, a diferença é óbvia. Ao escrever um poema, só penso nas exigências que ele mesmo vai se fazendo. Quando escrevo uma letra, ao contrário, faço-a para se encaixar em determinada melodia, levando em conta o seu ritmo, a sua coloração, o compositor da música, o cantor etc. Por exemplo, não faço a mesma coisa para Adriana Calcanhotto que faço para João Bosco.

S-Falaste de poemas que vens reunindo, um novo livro em processo. Como eles se relacionariam com os de Guardar e A cidade e os livros?

Em Guardar, eu quis fazer uma reunião dos melhores poemas que tinha escrito até então. Já A cidade e os livros teve mais unidade formal e temática. Agora me parece que esse novo livro não tem – pelo menos até agora – tanta unidade.

F-Me permita apontar um traço que acho característico na sua poesia, tanto na que aparece no livro Guardar, quanto no A cidade e os livros. Você jamais oculta o “monstro” (cito o poema Minos, do Guardar), não há medo dos uivos dos fantasmas de si mesmo (cito a letra da música Ladrão de fogo – disco Zona de Fronteira), ou seja, expõe a sua (nossa) humanidade, estabelecendo uma reciprocidade com o leitor. Daí pergunto: qual a sua intenção primeira ao lançar no papel o seu canto de poeta?

Minha intenção primeira é escrever algo que valha por si, algo que intrinsecamente mereça existir, sem necessidade de justificação – biológica, cognitiva ou utilitária – ulterior. Qualquer coisa pode ser o ponta-pé inicial: o fascínio por uma palavra, uma frase ouvida, um poema lido, alguma experiência, um amor, etc. Geralmente tenho uma ideia vaga do que ele deve ser. Essa ideia vaga me guia até certo ponto. Depois, o poema adquire vida própria, e solicita todos os meus recursos, para ficar pronto. Ele passa a mandar, e eu me torno seu servo voluntário.

F-Poesia e vida se tocam, interpenetram? A poesia se aproxima da vida em que situação?

Elas se tocam, mas não se identificam. A vida é parte da matéria prima. O “eu” do poema se alimenta, certamente também das experiências do poeta; mas não só delas. Ele se alimenta também – e talvez mais ainda – do que o poeta leu, contemplou, ouviu, pensou. O bom poema tem vida própria, independente da do poeta. E os poetas mentem, como já diziam as Musas de Hesíodo. Os heterônimos de Fernando Pessoa apenas levam às últimas consequências algo que acontece com todos os poetas.

F-Que poetas ou pensadores mais radicalmente provocaram o deslocamento do seu olhar para novas vivências ou experiências estéticas?

Horácio, Calímaco, Baudelaire, T.S. Eliot, Drummond, Shakespeare, Cabral, Larkin, Pessoa, Eugênio de Andrade, Rilke, Juan Ramón Jimenez etc.

F-Um poema ou obra literária que não envelheça e continue sendo boa se caracteriza por que aspectos?

Ela provoca o jogo das nossas faculdades mentais umas com as outras: inteligência, imaginação, sensibilidade, sensualidade, humor, razão etc. Desse modo, ela aumenta a nossa vitalidade e nosso entendimento do mundo.

F-Numa livraria aqui de Porto Alegre eu produzo mensalmente um encontro literário chamado “Palavra – alegria da influência”. Esse título invoca, em contraponto, a ideia da “angústia da influência”. Para esse encontro um escritor mais jovem convida outro já consolidado em termos de trajetória literária para indagar de coisas do seu fazer literário e leituras. Pra você qual poeta provoca uma “alegria da influência”? Alguém que, depois de lê-lo, você sente vontade de escrever poesia.

Tenho vontade de escrever sempre que leio boa poesia. Por exemplo, todos os poetas que citei acima me dão essa vontade. Mas cito mais um: Hölderlin.

F-Como foi trabalhar com Waly Salomão as letras/poemas para a música do João Bosco (disco Zona de fronteira)?

Foi uma grande experiência. Era divertido trabalhar com Waly e João. Eu e Waly éramos grandes amigos, mas muito diferentes, tanto como pessoas quanto como poetas. Nós nos encontrávamos e fazíamos uma espécie de brain storm. Depois, íamos depurando. E acho que acabamos produzindo letras que não são nem a minha cara nem a cara dele: que parecem ter sido feitas por um terceiro poeta, que tivesse sido influenciado tanto por mim quanto pelo Waly.

F-Você poderia falar um pouco sobre o seu novo livro, já está sendo preparado, há planos de lançá-lo quando? Poderia adiantar um poema que estará nessa nova publicação?

Pretendo lançá-lo no começo do ano que vem. Não sei bem falar sobre ele. Nunca consigo falar direito sobre nenhum poema meu. Mas envio-lhes um:

DIAMANTE

O amor seria fogo ou ar
em movimento, chama ao vento;
e no entanto é tão duro amar
este amor que o seu elemento
deve ser terra: diamante,
já que dura e fura e tortura
e fica tanto mais brilhante
quanto mais se atrita, e fulgura,
ao que parece, para sempre:
e às vezes volta a ser carvão
a rutilar incandescente
onde é mais funda a escuridão;
e volta indecente esplendor
e loucura e tesão e dor.
Antonio Cicero

Jornal Vaia, n. 29, Porto Alegre, abril de 2010.

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6 Comments:

Blogger Ricardo Mainieri disse...

É um grande cara, Antônio Cícero.
Poeta, letrista, filósofo, uma pessoa inteligente e acessível.
Tenho dele o livro Guardar e vários CDs em que ele faz as letras de Marina Lima e esta célebre parceria com João Bosco e Wally Salomão.
Valeu a pena tê-lo conhecido.
Gostei de tua participação como animador do debate e, também, nesta reportagem.

Abraço.

Ricardo Mainieri

14/6/10 09:33  
Blogger Mara faturi disse...

Belíssima entrevista querido poeta!!

Bárbaro o poema;"indecente esplendor"...

Bjo!

16/6/10 19:29  
Blogger Charles A. Perrone disse...

Antonio Cicero. Viva. Guardar sempre.

1/7/10 17:40  
Blogger Álvaro Andrade disse...

Sensacional entrevista, essencial. Sempre gostei muito do Antônio Cícero e a cada nova leitura ou "bate-papo" gosto mais.

Parabéns tb ao entrevistador.

abraço.

1/7/10 20:24  
Anonymous EDSON DA BAHIA disse...

Cícero é um diamante!
Avante, POETA!
EDSON DA BAHIA

4/7/10 10:16  
Blogger Poemas do Jorge Jacinto disse...

Parabéns pelo Blog! Muito legal o espaço! Abraços, Jorge.

10/11/10 16:37  

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