09 abril 2008

HECKER POETA, UMA BREVE COMPILAÇÃO

Paulo Hecker Filho

SIDNEI SCHNEIDER, Jornal VAIA, Porto Alegre, mar. 2008, p. 3.

O sentimento que tenho em relação ao Paulo Hecker é o mesmo que bateu forte quando saí do filme Vinicius, o belo documentário de Miguel Faria Júnior: meu irmão! Não importam idades, idiossincrasias poéticas, gostos pessoais, nada. E não é uma questão de se comparar a qualquer um deles, a coisa é mais simples. E bem mais profunda. Trata-se de um estado permanente de busca da poesia, de superação de si mesmo, de olhar para e pensar o mundo, de se colocar nele, de enfrentar a morte e a vida, de alcançar os outros. Nisso me banho como num oceano, e convido o leitor a também fazê-lo, não com um artigo, mas com uma visita a alguns poemas essenciais:

PARTILHA

O mundo é belo demais para um só homem.
Olhem comigo o dia que nos coube, tomem,
me deixem repartir tanta luz derramada,
que se eu ficar sozinho, eu vou ficar sem nada.

(Perder a vida, 1985)

Quando do falecimento do autor escrevi um depoimento para o Vaia, por isso não pretendo repetir dados nem os poemas daquela edição, muitos de Perder a Vida, o livro mais comentado, ficando assim escusada alguma ausência. Hecker, além de crítico e tradutor, trabalhou com vários gêneros literários, por razões de foco e predileção me restrinjo à poesia, o gênero ao qual mais se dedicou nas últimas duas décadas de sua vida. Integrante do Grupo Quixote, que agitou o estado a partir de 1947 com o lema “vamos fazer uma barbaridade”, publicou seu primeiro livro de poemas em 1950, no qual se pode verificar o que tinha a acrescentar ao cenário poético da época, bem como as linhas gerais de toda sua poesia:

Ah o homem morrendo de frio na porta
do baile em que eu disse a uma imbecil que a amava.

(Ah! Terra, 1950)

Repare-se, mais adiante, em Na Porta, o mesmo tema visto de outro ângulo, mas com o mesmo sentimento. Ser poeta e fazer poesias é, antes de mais nada, exercitar um jeito de sentir, um modo particular e pertinente de captar e disseminar o essencial do que ocorre numa época, nas relações humanas ou fora delas, ultrapassando a barreira do tempo. Em suma, um modo de ver com a linguagem:

OS OUTROS

Fico vendo a dor alheia
e ver é fazê-la minha. (...)

(Não se mate, 1992)

O QUE NOS CABE

Sê firme como quem não fosse.
Sê sábio como quem não sabe.
A vida não é dura nem doce.
A vida é o que nos cabe. (...)

(Perder a vida)

Já ouvi que o Paulo Hecker publicava lado a lado poemas bons e ruins. Sem que se declare nada acerca da qualidade de poemas concretos, o que propiciaria o debate, essa posição fica estendida no ar, sem sustentação. O argumento, no entanto, deprecia. É, além de tudo, equivocado na sua própria estruturação. Um poeta merece ser avaliado por aquilo que de melhor produziu. Não são só teóricos da literatura que o afirmam. Não é assim que lemos intuitivamente a obra de cada autor e mesmo um único livro dele, sempre procurando o que mais nos atinja? Mas comecemos a verificar, então, alguns poemas na sua concretude, para discutir a questão:

À INCOMPLETA

Dizem que Deus fez o mundo em sete dias.
Está ligeiro. E sete é conta de mentiroso.
Ainda mais se tratando de Deus,
tão calmo, tão discreto que até parece que não existe;
pelo menos nunca se faz notar.
Para mim, ele continua se decidindo e não adianta grito,
se faz de surdo e ainda demora mais.
Os homens bem que lhe dão uma mãozinha,
mas não podem tudo.
As melhores invenções ele deixou em meio.
Os cavalos em pedigree, os diamantes sem lapidar...
E você, complicada coisa linda, sem me amar.

(Perder a vida)

Nota-se aqui um humor diferente daquele propiciado por Mario Quintana, mais próximo do fino deboche. Hecker é agridoce, usa uma lâmina fina e delicada, enquanto sorrimos levemente, para nos cravar o punhal no peito. Em muitos dos seus poemas se percebe a ação de um intelecto que sente, mais afeito à dança dos conceitos do que à imagem ou à melodia. Quem busca num poema o que ele não tem não encontrará nada, precisa abrir sua sensibilidade. Versos assim não se consomem em metáforas, nem empilham excessivamente os sentidos de cada palavra com recursos polissêmicos, constroem-se de outro modo:

NA PORTA

Não estou com o rei da festa
nem na festa.
Estou com o que ficou na porta
sem coragem de entrar.

(Meu filho, 1992)

HUMILHAÇÃO

Nessa semana li oitocentas páginas.
Para lembrar cinco, preciso me esforçar
e, na semana que vem, nem me esforçando.

Enquanto isso, sozinho,
um operário construiu um quarto completo
na área do edifício ao lado.
Massa grossa e fina, tijolos, teto, janelas,
tudo no seu lugar. Já está pintando.

Não é uma humilhação?

(Diário de verão, 1992)

Não faltam, porém, ocasiões em que o poeta se entrega a ritmos leves e musicais, flertando inclusive com a canção:

EU TE AMAVA

Eu te amava como um louco
E por mera gentileza
(Eu não via, eu não via!)
Você até me amava um pouco.
Não havia outra beleza
Que você sorrir pra mim.
(...)
Mas você não gostava de mim,
Só gostava de me ver amá-la assim.
(...)
Hoje diz que eu tenho de voltar.
E implora, quase chora de desejo,
Mas eu vejo, mas eu vejo, mas eu vejo:
Não é pra dar o amor
Que você não tem pra dar,
Quer é aquele amor de louco
Para ser feliz um pouco. (...)

(Nem tudo é poesia, 2001)

E há vezes em que uma fala coloquial trata com muito bom-humor temas que em outras mãos poderiam redundar em pura chatice e amolação:

VEM CÁ OCEANO

Vem cá oceano,
me diz uma coisa,
pra que tanta água?
A do Índico
não tem sequer idéia
de como existe água
no Pacífico.
Já o Atlântico
bem pode saber
pelo Canal do Panamá.
Mas pra que, meu Deus,
está água toda?
Vai por mim, oceano,
vai por mim,
a dose é uma cerveja.

(Jornal Folha de Letras, 2003)

O poema a seguir já foi chamado de “uma sociologia da literatura”, provocante visão crítica do que é e não é fazer poesia, e pode ser útil para deixar mais conscientes poetas de todos os “tamanhos”:

OS POETAS MENORES

Os poetas menores vão conversar nas livrarias,
freqüentam palestras, congressos, seminários
e tardes de autógrafos pensando nas suas.
Os poetas menores participam de semanas culturais
e feiras do livro até no interior.
Só não estão em casa trabalhando. Não têm tempo.

Os poetas menores fazem visitas e são visitados.
Assistem a sessões em que conhecem a mesa e a platéia
e cumprimentam cada um.
São os primeiros a abraçar pelo prêmio ou a homenagem
e apesar disso
têm emprego, mulher, filhos,
fumam,
ou não fumam,
comem nas horas regulares
e escrevem. Não sei como.

Já os poetas andam atrás da sua poesia.
Segundo Faulkner, por ela deixariam morrer as tias.
E tias aí é eufemismo, a Bíblia diria pai e mãe.

Ninguém mais fácil de contentar do que um poeta menor.
Lembre algo que ele publicou
e logo receberá em casa suas obras completas,
sempre mais numerosas do que previa
e com dedicatórias de enrubescer seu ego,
por desproporcional que seja, como é a regra.

Folheia os livros e viu tudo,
se aproximam, não chegam, repetem, não dizem.
Mas o autor deseja opiniões precisas
e se refere a páginas que não estão
entre as vinte e duas que você leu
e não gostou.
A sorte é que supõe a favor o que é reserva
e sorri.

Para o poeta basta o que escreve,
o poema dá sentido à sua vida.
Sem o poema, restam ao poeta menor os comentários.
Não estranha que seus tímpanos dobrem de sensibilidade
ao menor sinal de interesse.

O poeta menor ri, fala macio, é prestimoso,
evita problemas na vida como na arte.
Por isso justamente é menor,
embora sofra tratando de não sofrer.
Na arena das relações e das letras,
não enfrenta os leões,
mas não acaba menos devorado,
pois há leões onde menos se espera.

Não se pode dizer que o poeta menor leve uma vida atribulada.
Busca se preservar de riscos,
o que às vezes é tão incômodo como corrê-los,
mas a falsa poesia que faz mostra que leva uma vida falsa.
Vivesse para valer, podia não ser poeta,
mas não seria um poeta menor.

O poeta menor não chora de noite como o poeta,
de noite ele dorme.
No outro dia, refeito, ocupa-se tanto
que não sobra espaço para o poema.
Já o poeta,
mesmo sem pensar no poema, o vive
e assim, quando vai ao seu encontro,
pode dar com ele.

Diante desses fatos, e outros de teor semelhante,
vê-se que os poetas não costumam ser agradáveis
e que os poetas menores são encantadores.
É ir ao poeta pelo seu poema
e folhear em pessoa o poeta menor.

(Vento, águia, coelho, 1991)

Hecker tinha afeição por certos personagens: caixas de supermercado, office-boys, garis, pedreiros, corredores de maratona, enfim, gente simples e esforçada:

NO BEM

Tem dezesseis anos, um metro e oitenta, e é lindo.
Todo mundo acha e ele concorda, rindo.
Office-boy, cruza a cidade num instante,
andar é chegar antes.
E estar de pé descansa, não vacila
nem diante da maior fila.
Vai espalhando alegria
como um dom do dia
e não importa a quem,
está no bem.

(Nem tudo é poesia)

Para terminar, dois poemas. Um parece nos dar um entendimento do que seria, afinal, a paz interior. O outro, sobre o sol, tema recorrente nas suas últimas poesias, fala de uma doação ilimitada que bem poderia ser a que nos chega através da vida e da obra desse poeta:

COM OS OUTROS

No que ando pela rua
evidente é a humanidade
e em seguida eu faço parte
e nem me procuro mais.

SOL/AR

Faz sol.
Como se não fizesse nada,
faz.

Em si como Deus.
Tanta luta e o sol
em paz.

E sem nada esperar,
tudo nos traz.

(Nem tudo é poesia)

Se o leitor desconfiou que estou instigando a ler os livros, revirar as folhas, degustar os versos de Paulo Hecker Filho, acertou em cheio. Mãos à obra!


BIBLIOGRAFIA:

FISCHER, Luís Augusto. Literatura gaúcha. Porto Alegre: Leitura XXI, 2004.

_______________. Um passado pela frente, poesia gaúcha ontem e hoje. Porto Alegre: Ed.Universidade/UFRGS, 1998.

GUTFREIND, Celso e LERINA, Roger. Querido Paulo. Zero Hora, Porto Alegre, 17 dez. 2005. Caderno Cultura, pp. 1; 4-6

HECKER FILHO, Paulo. Perder a vida. Porto Alegre: Tchê!, 1985.

_______________. Todas as mulheres, com perdão das que faltam. Porto Alegre: Tchê, 1986.

_______________. Vento, águia, coelho. Porto Alegre: SMC, 1991.

_______________. Não se mate, Diário de verão, Meu filho. Porto Alegre: Tchê/IEL, 1992.

_______________. Só poema bom (trad.). Porto Alegre: Alcance, 2000.

_______________. Nem tudo é poesia. Porto Alegre: Alcance, 2001.

_______________. Instituto Estadual do Livro. Autores Gaúchos, Porto Alegre, dez. 2000. pp.4-6

_______________. Entrevista a Gilberto Wallace, O Polêmico Paulo Hecker Filho. Folha de Letras, Porto Alegre, dez. 2000. pp.4-6

_______________. Poemas inéditos de Paulo Hecker Filho. Folha de Letras, Porto Alegre, jun. 2003. p.3

_______________. Paulo Hecker Filho. Folha de Letras, Porto Alegre, Inverno 2004. pp.32-36

INSTITUTO ESTADUAL DO LIVRO. Autores Gaúchos, Paulo Hecker Filho. Porto Alegre: IEL/Unisinos, 1998.

SCHNEIDER, Sidnei. Valeu, Paulo Hecker! Vaia, Porto Alegre, jan. 2006. pp.8-9

SCHÜLER, Donaldo. A poesia no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987.

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1 Comments:

Anonymous Diego Grando disse...

Maravilha de texto, Sidnei!
Peguei o Vaia essa manhã mesmo ali na Palavraria. Tu tá sabendo que o acervo do Hecker está lá na PUC?
Acho que chegamos a ser colegas lá na Letras da UFRGS, não?
Enfim, sigamos na poesia. Abraços.

24/4/08 13:12  

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