09 fevereiro 2010

LINHA JACUÍ: O RESGATE DA MEMÓRIA

Em carroções atulhados de apetrechos, as famílias se dirigiam até a estação de trem e partiam para nunca mais voltar. Ao chegarem a Porto Alegre, atravessavam a depressão central até Santa Maria, para depois, sempre de trem, subirem a serra rumo a Cruz Alta, onde novos carroções talvez levassem seus pertences a uma terra inexplorada. Vinham de São Leopoldo, Nova Petrópolis, Dois Irmãos, São Sebastião do Caí e arredores para descobrir, entre as matas que acompanhavam o Rio Jacuí, um lugar para começar, novamente, a partir do nada. Experiência não lhes faltava: seus pais ou avós haviam imigrado da Alemanha, confiantes apenas na sua capacidade de trabalho, para as matas do Brasil.

A história da colonização de Linha Jacuí é o tema desse livro. Mas não é um livro de memórias de uma vida em particular, e sim de toda uma coletividade, resgatando a luta comum através do trabalho para que todos pudessem viver dignamente. Cada detalhe é abordado, desde os primeiros habitantes, passando pelas transformações que a região sofreu, até beirar a atualidade.

O autor desta obra, nascido em Linha Jacuí e neto do casal de pioneiros, contou não apenas com suas próprias lembranças ou com os relatos que ouviu dos seus pais e avós quando vivos, mas pesquisou, perguntou, conferiu e reperguntou até chegar a uma posição coerente. Não é fácil reconstituir a história, qualquer um que o tenha intentado sabe disso. Ainda mais numa região que num curto espaço de tempo trocou o lampião pela luz elétrica, o porão pela geladeira, a horta pelo supermercado, o rádio de válvulas pela televisão, a junta de bois pelo trator, a foice pela colheitadeira. A ânsia legítima pelo progresso muitas vezes relega a segundo plano a preservação da memória coletiva e dos objetos que lhe correspondem, o que só mais recentemente começa a ser reparado através de museus e publicações como esta. Assim, o livro é um registro imprescindível, inclusive para que no futuro possa ser acrescido de novas informações ou gerar trabalhos de outros autores.

Ninguém se desenvolve sem memória. Conhecer o que existiu, o esforço dos que nos trouxeram ao presente, é fundamental para que também nós nos empenhemos no que nos cabe. Um balanço da trajetória percorrida permite que se possa escolher com conhecimento de causa a melhor direção a seguir. E é por isso que o autor às vezes se pergunta se não seriam necessárias algumas adequações, e preocupa-se com a preservação do meio ambiente para a saúde e o bem-estar das presentes e futuras gerações.

Enfim, quem quiser saber sobre as 28 indústrias coloniais que já teve Linha Jacuí, compreender como era possível existir um caminhão movido a carvão de lenha, ou familiarizar-se com o típico humor do colono alemão, terá aqui um prato cheio.


Sidnei Schneider, apresentação do livro, 2010.


"Linha Jacuí, 90 anos de história", Ilzemaro Schneider (Dahmer, 2010). Lançamento dia 16/02/2010, Grêmio Esportivo 25 de Julho, Linha Jacuí, Quinze de Novembro - RS, às 11 horas.

[Imagem da capa: Tempora Mutantur, de Pedro Weingärtner, 1889, 110 x 144 cm, óleo sobre tela. Acervo do Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli.]

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1 Comments:

Blogger guilherme bender disse...

Acabei de ler o livro! Muito bom mesmo.

28/2/10 15:37  

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